EXCLUSIVO CINEMA / TANGO NEGRO, AS RAIZES AFRICANAS DO TANGO Dom Pedro : “Acredito que muita gente ainda não admitiu ou percebeu que o Tango possa ter raízes negras oriundas de África” !

O cineasta de origem angolana, Dom Pedro, que mais do que uma vez ficou ilustre pelos seus numerosos filmes, aventurou-se num grande desafio: revisitar a história do Tango. O resultado foi um filme extraordinário com o título bem evocativo de “Tango Negro”, que tanto suscita paixões como curiosidade. O Courrier des Afriques [Correio das Áfricas] encontrou-se com o cineasta que revela e demonstra, graças ao contributo do célebre músico argentino Juan Carlos Cáceres, entre outros, as origens africanas do Tango, através da face escondida da história da Argentina, que foi considerada até agora o berço desta música cujas sonoridades e coreografias traem contudo a sua origem mais profunda. Começando, desde logo, pelo seu nome : Tango. Entrevista de coração aberto e ao sabor do vento com Dom Pedro.

 

Le cinéaste angolais Dom Pedro d'Angola lors de la présentation de son film "Tango Negro" à l'UNESCO.Dom Pedro – UNESCO

 

Courrier des Afriques: Dom Pedro, o senhor é cineasta de origem angolana e estudou Cinema no Conservatoire Libre du Cinéma Français (CLCF) [Conservatório Livre do Cinema Francês] enquanto vivia em França. Pode fazer-nos uma breve apresentação sua para os nossos leitores?

 

Dom Pedro: Como sabe, nasci em Angola e, ainda criança, fui levado para fora do meu país, seguindo a vontade dos meus pais. Depois de uma escala num dos países vizinhos, tive de ir para o mais longe possível a fim de fugir ao meu país que enfrentava uma guerra completamente arrasadora. E o mais longe que encontrei naquele momento foi, sem dúvida, França!

 

O que o levou a realizar o filme “Tango Negro” que suscita tanta paixão e interesse?

 

Já naquela época eu sabia que não podia viver fora de África e esquecer aquele maravilhoso continente que deu tanto ao mundo inteiro. Naturalmente, onde quer que eu esteja, tenho sempre Angola nas entranhas; consequentemente, pensar em dar um contributo para a evolução do meu país e, por afinidade, ao continente-mãe em que está situado, é uma missão a que não posso furtar-me. É para mim uma forma de prestar homenagem aos nossos que, um dia, foram desenraizados, ficando longe das suas terras ancestrais. Com efeito, quando olho para trás, apercebo-me de que nada foi improvisado nas minhas decisões; pois interrogo-me desde a infância. Sempre tive a impressão, sensações de que uma voz silenciosa me falava e me orientava para as minhas reflexões! Não tenho aliás qualquer dúvida sobre isso; Acredito nisso profundamente. Com firmeza!

 

Diga-nos como foi o seu primeiro encontro com o célebre músico argentino Juan Carlos Cáceres?

 

Estávamos em 2003, penso eu, na altura em que eu terminava a rodagem de um filme intitulado “Kin-Malebo Danse”, em dois episódios que contavam já as origens e evolução da música Rumba africana (congolesa)! Um amigo meu – Efuka Lontangé Nono, dançarino e coreógrafo que actualmente reside em Montevideo (Uruguai) – tinha-me convidado a casa dele, quando vivia com Andrée Navarro – a célebre Jornalista conhecida dos ouvintes de RFI de todo o mundo. Esta, que também era Pintora, conhecia bem Juan Carlos Cáceres, igualmente Pintor. E ao falarmos, Nono disse-lhe que eu estava a pensar fazer um filme sobre as raízes africanas do Tango; essa afirmação não a surpreendeu, porque ela já tinha alguns ecos nesse sentido e sabia que Juan Carlos Cáceres tinha dedicado muitos anos de investigação a esse tema. Alguns dias depois liguei-lhe a pedir que arranjasse um encontro com ele…

 

Le célèbre musicien argentin, Juan Carlos Cáceres.Juan Carlos Cáceres

 

Eu a pensar que a nossa conversa telefónica duraria dois ou três minutos e acabámos por ficar três quartos de hora a falar! Entendemo-nos tão bem que tive a impressão de já o ter encontrado ou conhecido. Desde esse momento, o homem começou a ensinar-me muitas coisas relacionadas com a região e com o continente; e apercebi-me de que, como muitos africanos e outros, o erro estava em pensar que África acabava no Brasil. Tenho de agradecer à Andrée, pois foi graças à sua abertura de espírito que pude encontra esse grande homem que se tornou meu Amigo, antes de se tornar um próximo e até um confidente. Para mim, Juan Carlos Cáceres, era um verdadeiro Humanista. Um Justiceiro que muitos gostariam de ter tido como amigo.

 

Juan Carlos Cáceres fazia parte dos Argentinos que queriam devolver ao Tango as suas raízes negro-africanas. Porquê, na sua perspectiva?

 

Juan Carlos Cáceres é um grande homem, um homem que sabia falar. Pertence a essa espécie de homens de que se perdeu o rasto – um Progressista – no sentido mais nobre do termo; um Humanista, pois colocava o ser humano acima de tudo.

 

É um dado histórico que não pode ser negligenciado ou minimizado; pois, se queremos relançar a “religião” universalista que consiste em tentar falar todos a uma só voz, é primordial, antes de mais, reconhecer o seu contributo na luta pela independência dos nossos países. Tratando-se aliás de um país como Angola, como proceder de outro modo? Negro, Branco, Mestiço,… já não é ou não deve ser a cor da pele de uma pessoa, não é a aparência que deve prevalecer; pois em todo o lado há bons e maus. Daí a importância de ensinar a História, a nossa História verdadeira aos mais novos, é certo, mas também aos menos jovens que devem conhecer a verdade sobre as diferentes etapas do andamento do continente africano e dos países que o compõem.

 

Tudo isso, obviamente, sem omitir o resto do mundo, pois nele tudo está ligado, de alguma forma. Juan Carlos Cáceres depressa compreendeu a utilidade de tal empreendimento. Pois era alguém que via sempre mais além que os outros, era um visionário, um vanguardista. Consequentemente era por vezes “incompreendido” por alguns. Todavia, se queremos realmente contribuir para o conhecimento do mundo, que gostaríamos de ver como o pensamos e não como nos é imposto, teremos, necessariamente, de fazer tudo para que aquela sua visão tenha seguidores. E esse trabalho não pode ser o de uma só pessoa, cabe a cada um na sua área colocar uma pedra no edifício: assim se faz a apropriação e transmissão da nossa História.

 

Quanto tempo levou para realizar “Tango Negro” e os seus interlocutores acederam ao jogo de forma espontânea?

 

“Tango Negro”, foram dez anos de trabalho, desde o momento em que abri a primeira página e/ou o primeiro site de busca sobre o Tango, o meu encontro com Juan Carlos Cáceres e a procura de financiamento; além do mais, a produtora com quem era suposto eu fazer o filme faliu e tive de voltar a marcar passo recuperando as etapas perdidas, o que tornava ainda mais difícil a concretização deste projeto que, para mim, era de importância maior. Estava convencido de que estava a pôr os pés em algo fabuloso, que podia dar algum conhecimento à Humanidade. Foram então necessários 4 anos de filmagens, tempo que se deveu essencialmente às dificuldades em poder reunir o orçamento necessário que nos permitisse deslocarmo-nos à América Latina.

 

Na verdade, como eu acreditava no que fazia e os amigos que me rodeavam acreditavam profundamente neste projeto, como aliás outros, dei o meu melhor para não perder nenhuma oportunidade; foi assim que se segui o Juan Carlos onde era produzido graças aos amigos que muitas vezes me acompanharam. Quero aliás, agradecer-lhes vivamente, mesmo àqueles que já não acreditavam que fosse possível. Além disso, quero agradecer os interlocutores que entraram no jogo; saliento que tivemos alguma dificuldade em “convencer” os que duvidavam. Alguns acabaram mesmo por abandonar-nos na jornada, quando as condições para a rodagem já estavam definidas! Foi precisa muita força para evitar uma crise de nervos.


“Tango Negro” é voluntariamente ou involuntariamente a desconstrução de um mito, o de um Tango cujo berço é a Argentina. Como é que os argentinos recebem a sua obra e que género de críticas encontra o filme?

 

Affiche Tango Negro (1)

Foi voluntariamente um empreendimento cujo objetivo era tentar uma desconstrução de várias contraverdades, de que o mundo é visivelmente vítima, à vista e com conhecimento de todos. “Enquanto os leões não tiverem os seus historiadores, os relatos de caça darão sempre glória ao caçador” diz um provérbio africano. Desde tempos longínquos que o caçador se apraz a narrar a história dos animais que caça no mato. Mas no dia em que os animais puderem contar a sua própria história, o olhar dos homens mudará. E acredito que chegou a hora de desmitificar a versão que muitos consideravam ser a verdadeira, isto é a do caçador.

 

Quanto à sua afirmação segundo a qual a “Argentina é o berço” do Tango, acho que não seria correto dar-lhe primazia. Pois, se é certo que Buenos Aires é incontestavelmente a sua capital, lembremos que Julio Sosa, uma das primeiras estrelas dessa música, é do Uruguai mas faz carreira em Buenos Aires, onde a indústria fonográfica estava mais desenvolvida que no seu país de origem. É uma interminável “polémica” que ninguém consegue esclarecer; tal como a do nascimento de Gardel, aliás! Mas como se diz no filme, cada pessoa se contenta em reivindicar o lugar onde se sente melhor e não necessariamente aquele onde nasceu, embora nunca se esqueçam as raízes. Evidentemente temos sempre de enfrentar opiniões, reações diferentes em cada criação; e o meu filme parece ter também os seus “detractores”.

 

Na verdade, não é tanto assim ! Acho que muita gente ainda não admitiu ou entendeu que o Tango, essa música que tanto adulam, possa ter raízes negras oriundas de África. Juan Carlos Cáceres considerava-os “negacionistas”! É importante que as pessoas tenham a liberdade de reagir, de julgar uma obra como entenderem, tanto mais que, ao tornar-se público, um filme como “Tango Negro” terá dificuldade em criar unanimidade. Além disso, não é o que procuro; o meu desejo mais ardente é que as pessoas ultrapassem as ideias preconcebidas, gerem convenientemente as suas emoções para procurar compreender o porquê do como. O objectivo que pretendo alcançar é o de contribuir para conhecer o mundo cujos contornos são cada vez mais indefinidos. Fruto das falsificações e das contraverdades com que o envolveram.

 

Dom Pedro, o seu filme aborda a questão dos Negros na Argentina que é quase um assunto tabu porque, exagerando um pouco, já não há Negros na Argentina quando são eles que estão na origem do Tango. Para onde foram então todos esses Negros?

 

Une famille argentine à environ 60-70 kms de Buenos Aires recevant l'équipe du film.Mais ou menos de 60 kms de Buenos Aires

 

Como sabe, para esconder as raízes negras do Tango, era absolutamente necessário fazer acreditar o mundo que nunca tinha havido Negros naquele país! Consequentemente, porque ambos estão ligados, não podia admitir, por um lado, a presença da herança negra naquela música e, por outro, negar a existência de Africanos Negros no país! A omissão destes dois pontos era, para eles, a única estratégia válida… E decidiram rescrever a história do país editando manuais escolares do infantário à Universidade, falsificando assim a história do país. Mas, ao longo do tempo, fomo-nos apercebendo que a sua armadilha, que tinha funcionado durante anos, já não enganava ninguém; a artimanha parece enferrujada e as línguas desenlaçam-se pouco a pouco.

 

Un couple argentin des Candomberos.Candomberos argentinos

Hoje a juventude argentina ou, mais amplamente, a do Rio del Plata ativa-se para quebrar todos os tabus que mantinham o seu passado fechado. Assim, cada um desses jovens vai à procura das suas raízes para melhor se situar na História do seu país. O mesmo se passa com os debates na moda em numerosas Universidades da região. “Quantos brancos têm figuras de Negros?” Esta questão é colocada no filme; o que diz muito. Não se pode baixar os braços, agora que o sol já desponta. Sejamos solidários e trabalhemos para dar luz ao mundo que balança numa grande mentira finalmente “desmascarada”.

 

Na sua opinião, de que região terá partido a música que deu mais tarde o seu ritmo ao Tango?

 

De acordo com o nome dado a esta música, é sem dúvida na região do antigo Reino do Kongo (que ia do Oceano Atlântico até boa parte da actual República dos Camarões) e cuja capital – Mbanza Kongo – se encontrava a Norte de Angola, que se encontra a origem do Tango. Aliás, convém esclarecer que a dança “Kizomba”, que faz actualmente o furor por todo o mundo e que, por vezes, é classificada de “Tango africano” tem origem em Angola (Norte). Além disso, na capital regional da Província de Uige, no Norte deste país, fiquei surpreendido e confortado por descobrir que, nesta cidade, que tem o mesmo nome que a Província, há um velho bairro que responde pelo nome de “Kandombe”! Ora, na América dita Latina, Candombe é um dos seios na base do que mais tarde se chamará TANGO. Quanto ao modo de tocar esta música, o ritmo atual não é mais do que a evolução técnica elaborada na época, fruto da utilização de novos instrumentos e da influência de outros ritmos musicais: locais e europeus. No filme, Juan Carlos Cáceres faz uma demonstração fabulosa.

 

Que quer dizer a palavra Ntangu que deu nome ao Tango e a que língua africana moderna pertence ela ainda hoje?

 

Desde os tempos mais remotos, “Ntangu” sempre significou e significa ainda: sol, hora, tempo, espaço-tempo, época, período, etc. conforme o contexto em que é utilizado. Essa língua, o Kikongo, era a língua oficial dos Kongo (habitante do antigo Reino do Kongo acima referido, cuja influência se estendia para lá da esfera “Bantu” ou África Central! E o “Kikongo”, uma língua que nunca morreu, continua a ser falada de formas variadas sobretudo em Angola, na RDC e no Congo-Brazzaville.

 

Na minha língua materna, o Nateni do Noroeste do Benim, por exemplo, traduzia-se filologicamente a palavra Ntangu com o significado de som, ou melhor o movimento e/ou ruído que faz a água ao correr?

 

Não discordo de modo algum, pois a mesma palavra poderia evocar ou significar outra coisa segundo as normas linguísticas de cada um. E é perfeitamente normal e compreensível; neste caso, conviria talvez procurar saber qual foi realmente o ponto de partida dos “Natemba do Noroeste do Benim” para fixar os seus contornos. Daí a importância primordial da Filologia, que poderia permitir-nos repensar sobre o como proceder para implementar uma língua comum de comunicação no continente africano! E porque temos “especialistas” suficientes, não seria inútil pensar na criação de grupos de trabalho para propor soluções junto dos decisores. Senão, para que servem os especialistas?

 

O filme já foi projetado em vários países do mundo. Para quando a sua saída?

 

Como sabe, por várias razões, o filme precisou de 10 anos de trabalho. Luto com esperança para encontrar na Europa, em África ou noutro lugar, um Distribuidor sério que me permita editar o filme e colocá-lo no mercado. A cada projecção recebo regularmente pedidos; mas, ao mesmo tempo, consciente da envergadura do “produto”, não quero precipitar-me nas mãos estendidas de qualquer um; o sonho ideal era encontrar alguém que pudesse compreender o meu percurso e aderir a ele. Não se trata só de Business, como se poderia pensar, mas vai para além disso, pois o meu percurso é também espiritual.

 

Deux Uruguayens de Montevideo entourés par Dom Pedro et Efuka Nono Lontangé.Montevideo – Dom Pedro & Efuka Nono Lontangé e dois Uruguaios no meio

 

Que contributo o seu país de origem, Angola neste caso, deu ao seu trabalho, dado que pelo seu trabalho o senhor acaba por ser um embaixador de Angola no exterior?

 

Por enquanto, é sobretudo um reconhecimento moral, e faz-me bem psicologicamente ser reconhecido pelos meus, mesmo que trabalhe no Universalismo. Mas quero sublinhar que na “estreia mundial” do filme lançada na UNESCO, as despesas necessárias para o evento foram assumidas pelas autoridades angolanas. O que foi para mim uma satisfação pessoal; tanto mais que, anteriormente, o filme tinha obtido a adesão dos Especialistas da “Route de l’Esclave : “résistance, liberté de créer et héritage” [Rota do Escravo : resistência, liberdade de criar e herança]. Seja como for, estou profundamente grato por pertencer ao grande país que é Angola. Por fim, pelo meu trabalho, alguns meios de comunicação social não hesitaram em atribuir-me o título de Embaixador cultural angolano no exterior… O melhor está para vir!

 

Quais são os projectos de Dom Pedro depois de “Tango Negro”? “Samba Negro”, talvez (risos…)?

 

Sim, essa teve muita graça! Mas falando seriamente, acho que o Samba, a Capoeira, o Batuque, o Kizomba, o Kuduro, etc., nenhuma destas expressões sofre de ocultação, ainda que muitos outros países reclamem a sua paternidade. Com efeito, evocando um futuro próximo, permita-me uma confidência: faço parte dos velhos stacanovistas que passaram à história, mas que guardaram o reflexo de ir constantemente ao forno! Assim, mais do que nunca em acção, sempre tive dois ou três projectos de avanço escritos! Em concreto, trabalho actualmente num documentário, na mesma linha de Tango, para o qual continuo a aguardar financiamento. Há também uma ficção como opção com a “Real Ficção”, uma produção portuguesa; e para esse projecto de ficção, quero sublinhar que o filme será inteiramente rodado em Angola. Será uma ocasião para mim de dar emprego a alguns técnicos ou actores angolanos, dado início ao meu contributo concreto para a evolução do cinema nacional angolano.

 

Dom Pedro en plein tournage au Québec.Québec – Dom Pedro

 

 

Que mensagem tem para o público?

 

Pelo mundo, onde o filme já foi projetado, profiro o mesmo discurso e mantenho-me fiel ao meu credo: sobretudo não pensar que só África é vítima de misérias; as comunidades de todos os países do planeta são afetadas, mesmo que nos países do Norte tenhamos a sensação de que se vive melhor do que no resto do mundo. É uma ilusão, pois cada indivíduo tem as suas preocupações; estamos todos no mesmo barco e somos vítimas das mesmas armadilhas; só juntos conseguiremos lutar para nos livrarmos disso. E como ninguém pode viver feliz sozinho, é importante compreender que devemos estar unidos e solidários para remediar a situação. É absolutamente necessário tirar o pó deste planeta, dar a este mundo uma nova visão em conformidade com as aspirações humanas, em vez nos submetermos ao diktat dos que impõem à humanidade a sua visão que se visa mais o plano material do que o ser humano. Acredito profundamente que isso é possível.

 

Tenho muitas vezes tendência a dirigir-me essencialmente à juventude, não só africana, mas do resto do mundo. Em todo o lado ela está com um gritante défice de referências históricas: os primeiros questionam-se porque são regularmente apontados, são os primeiros a daí tirar as consequências nefastas; os segundos, pensam menos nisso ou mesmo nada porque, desde a época da escravatura, presente ainda hoje mas com outras formas, e da época colonial que culminou com as lutas pela independência de países terceiros, os seus descendentes continuam a achar-se superiores aos primeiros pelo discurso que engoliram e continuam a engolir. Consequentemente, a ideia de repor em causa o funcionamento do mundo não os toca de modo algum, porque acreditam firmemente em todos os sinais que lhes são favoráveis e que serão para sempre “mestres do mundo”; no entanto, tal como os primeiros, vivem na ilusão total! A palavra mestre é : a Reapropriação e a Transmissão.

 

Muito obrigado por me terem dado a palavra.

 

 

 

Entrevista por Marcus Boni TEIGA

 

 

 

Leia também:

 

REPÚBLICA CENTRO-AFRICANA / ENTREVISTA REGINA KONZI MONGOT « Tudo é urgente na República Centro-Africana »

Commentaires