SENTIR NA PELE O PESO DAS DIFERENÇAS – Ser mulher negra em Lisboa

Carla Fernandes é jornalista, produtora de rádio e blogger. No passado sábado 31 de outubro participou no TEDxLisboa 2015. A cor em mim foi o seu tema. Falamos com ela entre ensaio e ensaio.

 

Carla FernandesCarla Fernandes

XOÁN COSTA

 

-Angolana? Portuguesa?
-Angola é o meu país de origem mas Portugal foi o país que me viu crescer.

-E isso repercutiu em sua vida?
-Desde bastante jovem senti na pele o peso que as diferenças culturais podem ter no relacionamento entre as pessoas. A partir desse momento, o diálogo entre culturas começou a interessar-me.

-Você é formada em tradução. Identificam culturas as palavras?

-Formei-me em tradução das línguas inglesa e alemã. Através do processo de tradução também me apercebi de que palavras são mais do que palavras, e que traduzir não é apenas substituir uma palavra por outra. As palavras em diferentes línguas acarretam a história e as estórias que identificam diferentes culturas.

-Tradutora, jornalista, audioblogger …
-Sim, em 2014 criei o audioblogue Rádio AfroLis onde afrodescendentes a viver em Lisboa partilham as suas estórias e falam sobre a sua visão pessoal da cidade.

-Como é ser mulher negra em Lisboa? 

-Ser mulher negra em Lisboa é ser invisível e, ao mesmo tempo, estar sujeita a uma exposição indesejada. Somos invisíveis porque não somos consideradas como destinatárias de coisa alguma. Não nos consideram quando pensam em estratégias políticas ou sociais, como se não votássemos. Não nos têm em conta quando produzem publicidades, literatura ou espetáculos, como se não consumíssemos produtos culturais. Não somos tidas como relevantes para o panorama geral do que é a cidade de Lisboa. Somos africanas pela cor da nossa pele e por aspetos culturais e temos um lugar na cidade que parece estar camuflado.

-Que espaços ocupa (ou não) a mulher negra na cidade: culturais, políticos.

-O habitual é que trabalhemos em profissões domésticas e ou no setor dos serviços, que apesar de serem vitais para o equilíbrio de qualquer sociedade, nem sempre são valorizadas. Este é o lado invisível do que é ser mulher negra em Lisboa, em Portugal. Mas é impressionante a enorme exposição com que nos deparamos quando estamos em espaços, “tipicamente” frequentados por pessoas brancas, seja a academia, o local de trabalho que exige maior qualificação, ou até mesmo alguns espaços de atividades culturais. Aí somos únicas, no sentido exótico da palavra.

-No entanto, a multiculturalidade de Lisboa continua a ser celebrada…

 

O assassinato de uma mulher negra tem menos tempo de antena, se é que chega a ter algum

 

-O que é curioso, porque Lisboa é uma cidade bastante multicultural e, num primeiro contacto, não se consegue adivinhar esta realidade, o que faz com que estas situações sejam quase que uma contradição, porque esse potencial existe, mas não tem sido aproveitado igualmente por todos, no sentido em que a exclusão ainda é uma realidade.

-Se habitualmente por ser mulher já existe uma certa discriminação a nível profissional, salarial, etc. Piora muito no caso de ser negra?

-Em Portugal, as mulheres, em geral, ganham cerca de menos 13% que os homens (Eurostat 2011), apesar de haver dados que apontam para um diferença maior que pode chegar aos menos 18% (Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia). Esta diferença pode ser mais acentuada no caso das mulheres negras, mas não existem dados concretos que possam provar essa realidade.

-Não há estatísticas?

-É complicado falar sobre a situação da população negra, em Portugal, porque as estatísticas oficiais só registam nacionalidades e não etnias ou fenótipos. O registo desses dados são impedidos por lei para não reforçar estereótipos, por isso, posso antes, falar daquilo que é a experiência da mulher africana imigrante relativamente a diferenças salariais ou de discriminação a nível profissional referindo-me principalmente à natureza dos trabalhos desempenhados por essas mulheres.

-Quais os trabalhos desempenhados?

-Segundo os censos de 2011, dos 196 296 estrangeiros empregados, cerca de 40% deles concentravam-se em apenas 5 profissões, sendo que a maior parte eram trabalhadores da limpeza em casas particulares, hotéis e semelhantes (15,2%) seguindo-se os vendedores em lojas (8,8%) os trabalhadores qualificados da construção (7,0%) os/as cozinheiros (5,2%) e os empregados de mesa e bar (3,5%). Os números referidos dizem respeito a todos os trabalhadores estrangeiros, homens e mulheres de nacionalidades variadas.

-No entanto, pode inferir-se que os trabalhos de limpeza são tipicamente desempenhados por mulheres..

-E essa profissão era, de acordo com estatísticas oficiais (Censos 2011), a principal para 8 das 12 nacionalidades estrangeiras mais representativas, destacando-se 34% da população cabo-verdiana, 31% dos são-tomenses e 22,9% dos cidadãos da Guiné Bissau. Acredito que no caso da mulher negra, a discussão sobre discriminação, em Portugal, vai mais no sentido dos empregos disponíveis para esse grupo do que em termos salariais (não minimizando a questão da remuneração), porque ainda são poucas as mulheres negras que têm destaque em profissões qualificadas, apesar de existirem algumas, como Francisca van Dunem, procuradora-geral distrital de Lisboa desde 2001, que já as ocupam.

-Vivemos um tempo em que a violência contra as mulheres chega ao assassinato. Vive a sociedade de modo diferente o assassinato duma mulher negra?

-O valor da vida de uma mulher negra passa ao lado da maior parte das sociedades, até mesmo de sociedades africanas, infelizmente. A agressão dirigida a uma mulher negra não chega a ser tematizada, por não fazer parte da agenda do debate público. O assassinato de uma mulher negra tem menos tempo de antena, se é que chega a ter algum. Muitas vezes a vida de uma pessoa negra é associada a um ambiente de violência, o que minimiza o impacto dos atos de violência contra pessoas desse grupo racial, por ser algo “previsível”, algo que supostamente faz parte do seu dia a dia.

-Isso não é exclusivo de Portugal …

-Não. Os casos mais flagrantes de ataques a vidas negras veem dos Estados Unidos da América, onde que se criou o movimento “Black lives matter”, após uma série de assassinatos de homens e mulheres negras por parte da polícia sem consequências de maior para os agentes policiais envolvidos nos diferentes casos. Em junho de 2015, por exemplo, Sandra Bland, foi parada no seu carro pela polícia e após uma troca de palavras agressiva com um agente policial foi detida e acabou por ser encontrada morta na sua cela de prisão. As informações oficiais foram de que Sandra Bland teria cometido suicídio, mas muitos membros da comunidade negra norte-americana acreditam ter sido mais um assassinato que ficaria impune. Acredito que sim, que as vidas de mulheres e pessoas negras, em geral, são, muitas vezes, consideradas menos relevantes.

-Você é afrodescendente. Como é a integração, de homens e mulheres, na vida quotidiana de Portugal. 

-Os portugueses negros são designados como imigrantes de segunda geração, novos portugueses ou luso-(país de origem dos pais). Há estudos que indicam que a maior parte deles não se sentem portugueses e acabam por identificar-se com o país de origem dos pais. Eu não nasci em Portugal, mas a minha família veio de Angola para cá quando eu tinha 2 anos de idade e, posteriormente, só estive duas semanas em Angola a trabalho, portanto, toda a minha socialização foi feita em Portugal.

-Sente-se portuguesa?

-O curioso é que no meu discurso, por exemplo, há sempre uma alternância entre o “eles” (os portugueses) e o “nós” (os portugueses) ou o “eles” (os angolanos) e o “nós” (os angolanos), como se a escolha do pronome se tratasse de uma decisão estratégica tendo em conta os contextos. Mas não. Só me apercebi desse fenómeno quando me chamaram a atenção para este hábito e comecei a observar que outras pessoas negras e muitas já nascidas em Portugal faziam o mesmo. Com esta pequena introdução, quero dizer que o processo de integração é contínuo e não existe um momento em que possamos dizer estamos integrados, passámos o teste.

-Devo entender que a integraçao não é adequada e supõe renunciar a uma parte de si …

-Como afrodescendente a viver em Portugal, considero que a integração tem sido apresentada de uma forma pouco atrativa. A integração apresenta-se como um conjunto de regras, recomendações a seguir para se atingir um certo grau de aceitabilidade na sociedade portuguesa. Mas para que essas recomendações e regras sejam satisfeitas, temos de abandonar e, em alguns casos, negar uma série de crenças e costumes, como falar o português sem sotaque e não falar crioulo, por exemplo.
Por outro lado, cada vez mais se vê que os portugueses exibem abertamente que estão a assimilar aspetos culturais de países africanos através da adesão a estilos musicais e de dança como o kuduro, ou a kizomba, e ate mesmo a aprender crioulo. Ou seja, acaba por ser irónico que os afrodescendentes  sintam que devem  distanciar-se das suas culturas para se integrarem na sociedade portuguesa, e os portugueses se aproximem cada vez mais das culturas africanas e exibam a sua mestria até com um certo orgulho.

-Nestes dias conhecemos, também através da sua “filhota” AfroLis a luta dos presos políticos angolanos… 

-Fiquei feliz quando os media em Portugal começaram a dar destaque à situação dos presos políticos angolanos, porque, antes disso, vivia-se esta situação de forma privada, ou seja, apenas nichos de pessoas e movimentos que se ocupam com os direitos humanos em geral e angolanos informados se mobilizavam para divulgar o que estava a acontecer. Talvez, por isso, houvesse um certo ambiente de tensão por medo de represálias, mas isso não impediu as pessoas de mostrarem a sua indignação.

 

Fiquei feliz quando os media em Portugal começaram a dar destaque à situação dos presos políticos angolanos

 

-Como se vive desde fora de Angola esta situação?

-Têm-se organizado uma série de concentrações e vigílias, pela libertação dos prisioneiros que foram detidos por ler e discutir o livro « Ferramentas para destruir o ditador e evitar nova ditadura – Filosofia Política da Libertação de Angola », de Domingos da Cruz. Quando penso que o Tribunal Provincial de Luanda, acusou o autor de rebelião pela organização de seminários de debate político, e por ter escrito um livro que na realidade defende ideias não-violentas como meios para a mudança de regime, recusando golpes de Estado militares, sinto uma grande tristeza e uma indignação maior ainda pelo que os (agora mais de) 15 presos estão a passar por quererem apenas procurar formas de contribuir para melhorar o seu país. Essa tristeza e indignação são também sentidas por muitas outras pessoas em Lisboa que não deixam de sair às ruas para mostrar continuamente que estão atentas ao que se passa em Angola, tendo sido mais uma concentração marcada para o dia 4 de novembro em frente à embaixada de Angola em Lisboa.

-Você é a “mãe” do audioblogue Radio AfroLis.

-O audioblogue Rádio Afrolis nasceu de uma necessidade minha. Eu queria saber onde estão e o que estão a fazer os afrodescendentes negros em Lisboa. Saindo à rua vê-se muitas pessoas negras, mas em variadíssimas representações de Lisboa parece que não existem. Decidi fazer essas perguntas diretamente a outros afrodescendentes e, há mais de oitenta semanas, tenho obtido respostas que me levam a crer que os afrodescendentes estão em todas as áreas da sociedade portuguesa a participar em todo o tipo de atividades, desde escritores, empresários, passando por advogados, médicos, realizadores de cinema, músicos e professores, etc.

-Quais os projetos de futuro para ele?

-Desde abril de 2014 tenho trabalhado com pessoas interessadas, que têm participações esporádicas, mas valiosas no que e o trabalho da AfroLis, a exceção do fotógrafo Herberto Smith que me tem acompanhado permanentemente desde bastante cedo. Partilhamos histórias produzidas por afrodescendentes para afrodescendentes de modo a mostrar a diversidade do que são as experiências dos afrodescendentes a viver em Lisboa. Começámos por ser um audioblogue agindo essencialmente online e agora queremos aproximar-nos daqueles que nos seguem através da internet e produzir conteúdos de forma mais orgânica, comunicando diretamente com as comunidades de afrodescendentes em Lisboa. O futuro vai trazer muitas novidades que ainda estão a ser preparadas mas que serão anunciadas brevemente.

 

XOÁN COSTA

 

 

Source: http://www.sermosgaliza.gal

 

Sermos Galiza (Portugal)

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